segunda-feira, 23 de abril de 2012

Agridoce

Já passavam das seis da manhã quando acordei. Lembro de dar uma última olhada no despertador antes de jogá-lo na parede. Anotei na lista: Comprar um despertador novo. Olhei o resto da minha lista de compras: Itens de higiene e remédios. Minha felicidade sintética. Gostaria que continuassem a fazer efeito. Gostaria de uma injeção de ânimo as vezes, gostaria de uma solução mágica para os meus problemas.


Tudo são remédios. Desde criança eu tenho que tomar remédios para uma infinidade de coisas. Pra todas as dores possíveis e imagináveis, pra fortalecer ossos, músculos, fortalecer meu sistema imunológico. Olhei pra minha caixinha de remédios. Abarrotada de comprimidos, líquidos, sachês. Sou hipocondríaca, triste constatação.

Repensei na minha vida e nas minhas atitudes. Estou sempre remediando coisas. Sempre arrumando soluções para problemas quando tudo que eu queria que não acontecesse, acabou por acontecer. Porque será que sempre tendo a querer remediar? Porque nunca evito? Porque nunca me previno? Acho que minha hipocondria avançou nos aspectos da minha vida e se fez presente no meu caráter de forma integral.

Levantar da cama é um martírio. Em dias como esse eu queria ter 5 anos de idade, dizer que estou com dor de dente e ficar em casa. Não trabalhar, não estudar, não cuidar de casa, não resolver problemas, não fazer absolutamente nada além de me enrolar no cobertor, tomar leite, comer biscoitos e assistir desenho animado o dia todo.

Mas a vida me chama. E os problemas malditos além de chamarem, ligam pra celular, por skype, mandam sms, chamam a atenção no MSN, mandam recados no facebook, sinal de fumaça, ligam até pra sua vizinha e pedem pra dar recado. Sim, os problemas te acham sempre. E não adianta fugir porque problemas existem dentro de você. Eu já até tentei jogá-los dentro do freezer e matá-los por hipotermia. Tentei afogá-los na piscina. Tentei afogá-los com vodka. Nada adiantou.

Esse gosto agridoce que invade as papilas gustativas da minha mente me leva a pensar em tantas coisas. Odeio pensar. Queria desligar meu botão de pensar e ficar assim num modo de vôo, um piloto especial, talvez. Odeio agüentar pessoas, odeio esse mundo, odeio respirar, odeio ouvir, odeio ver, odeio constatar que minha vida é uma merda. Odeio minha vida, me odeio. Odeio odiar. Odeio amar. Odeio saudades. Odeio bipolarizar. Odeio.

Entrei no carro, fui pro supermercado, fui na farmácia, atendi telefonemas que só me trouxeram mais problemas, fui pra faculdade, assisti aula, não prestei atenção nas matérias, ignorei metade das coisas que me faziam feliz. Me afundei mais ainda na minha depressão. Senti saudades, peguei o telefone, disquei um número, desliguei. Não tive coragem de dizer “Oi, te amo. Sinto saudades. Por favor, fique comigo e me faça feliz.”

Liguei outro número para pedir pra ter de volta. Pra pedir colo e dizer “estou com medo”, pra dizer que me arrependo de todos os meus erros e que a partir de agora eu juro que vou tentar ser do jeito que querem que eu seja. Desliguei antes de chegar a chamar. Também não tive coragem. Fiquei na vontade. Sou uma mulherzinha idiota.

Não estou de TPM, não estou triste. Só estou cansada. Cansada de ser eu, cansada de estar onde estou, com quem estou, do jeito que estou. Cansada dessa vida, cansada dessas pessoas, cansada desse mundo, cansada de resolver meus problemas, os problemas dos outros. Cansada.

Estou apenas cansada. Ou não. Apenas estou. Não sou.

Só sou hipocondríaca. Só quero um porre. Ou umas gotinhas de Rivotril.

Vou dormir porque por sorte, ainda não odeio dormir.



sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz Ano Novo!

Eu sempre sou daquele tipo de gente que fica super ansiosa por algum evento. Daí chega a véspera do dia esperado e eu simplesmente começo a alternar euforia e depressão. Quem manda ser bipolar, né?
É uma mistura de pessimismo com otimismo, alegria com melancolia, desejo de viver e uma vontade inenarrável de tomar o rivotril todinho e acabar com tudo de uma vez.

Já houve vários ensaios sobre a mente de um bipolar. Muitos já tentaram estudar, entender, descrever... Só se sabe quem sente e se uma coisa que eu posso afirmar - sendo eu uma portadora de TBH - é que o bipolar nunca é. Ele está sempre sendo.
A mente de um bipolar funciona mais rápido que o coração de um beija-flor. Os pensamentos vem e ricocheteiam na nossa cabeça, e é uma tentativa quase sempre em vão de tentar agarra-los e permanecer com eles. Eles vem e vão. Tal qual as pessoas. O meu maior defeito talvez seja a deficiência que eu tenho em cultivar bons sentimentos e relações.
Eu enjoo de pessoas, de coisas, de lugares, de cheiros, de comidas. De tudo. Eu simplesmente enjoo e não quero mais ver na minha frente. Não sei é culpa minha ou se é o TBH que faz isso. Não quero me escusar usando minha patologia como desculpa mas eu sou assim. E não vou mudar. Sei que não vou. Porque sou teimosa e porque nem quero. Cansei de agradar os outros.

E aí, passado o meu aniversário que é um marco no ano nessa minha instabilidade emocional, vem o períodos das festas de fim de ano.
Resolvo beber todo natal porque sempre espero o Papai Noel e a felicidade mas nenhum dos dois vem. Então viro algumas doses e durmo pra esquecer que quando acordar de manhã não tem nenhum presente com meu nome embaixo da minha árvore nem tem ninguém me ligando dizendo que quer ficar comigo o resto da vida, casar, ter três filhos, dois gatos, um cachorro e uma casa com jardim chinês.

Passa o Natal e eu me animo com o reveillon. Aí no dia 31 começa tudo de novo.
Porque as pessoas festejam a passagem do dia 31/12 pro dia 01/01? É só mais um mês dos 12. Só mais um.
Mas tem essa magia toda que envolve o reveillon. Essa coisa de esperar que o próximo ano seja melhor, que a vida seja melhor. De repente todo mundo é bom, todo mundo é educado e te deseja coisas boas pro próximo ano. Até o seu vizinho que você passa 364 dias sem nem dar bom dia quando vê você saindo do carro grita "Feliz Ano Novo".
Pras pessoas é um começo. É um recomeço.

Pra mim é só o fim. Fico inquieta com essa coisa toda, esse glitter todo, os fogos me ensurdecem, não me deixam nem ouvir meus pensamentos e eu só quero que aquilo tudo termine.
As pessoas veem até mim me abraçar a meia-noite e eu dou um sorriso amarelo.
Alguém pergunta se não estou feliz. Não é que não esteja feliz. Seria um crime não estar feliz pelo simples fato de estar viva, mas acho que estou apenas cansada.

"O que é que essa menina tem? Tá ali toda solitária."
"Deixa, ela é assim mesmo, depois melhora..."

Eu sou assim. Depois eu melhoro. Quando acaba tudo, quando a festa acaba, quando os fogos cessam e as bolinhas do champagne param de subir, eu melhoro. Acabou. É o novo ano. É fim do começo. Aleluia!

domingo, 28 de agosto de 2011

Montanha russa.

São 21:52h de um domingo quando comecei a escrever esse texto. Estou comendo penne com creme de atum, sozinha e escrevendo aquilo que eu não consigo falar. Nada consegue simbolizar mais o quão depressiva eu estou.
Amanhã a terapeuta vai me perguntar como eu estou e eu vou responder que eu estou bem. Mas minha mentira será ignorada porque certamente ela não pode fazer nada além de me dar outras drogas pra eu seguir minha vida me dopando e fingindo pra mim e para todos que estou de fato, bem.
Disseram-me que estabilizantes demoram a fazer efeito. Que eles levam pelo menos 2 meses pra começar a fazer o efeito esperado. Comecei a tomá-los já fazem 6 meses e estou sempre à espera do efeito que me foi prometido. Tive diversas recaídas, tive vontade de me matar, tive descontroles, surtos, e cada vez que eu olho no espelho eu vejo que eu minto pra terapeuta, pra minha família e pra mim mesma. Eu não estou nada bem e pareço estar longe da Felicidadelândia.
Todos os meus planos parecem que nunca vão dar certo e que quanto mais eu sonho, mais eu caio no chão e ralo os joelhos. Quero sair na rua e tentar encontrar, tentar me encontrar. Mas quando eu me perdi? De quem eu me perdi? Do que eu me perdi? Eu me perdi?
Preciso me encontrar, preciso encontrar quem eu amo, preciso encontrar o caminho do encontrar-se. Mas onde começa esse caminho? Será que eu não passei por ele e esqueci de olhar melhor? Essa estrada permite retornos ou é só uma linha reta de uma única mão?
Apago a luz do quarto e deito pra esperar o sono. Tenho sonhos que parecem tão reais que parece que a qualquer minuto eu não vou mais acordar. E na atual situação eu acho que isso seria o melhor pra mim.
Acordo sobressaltada, respirando forte com o coração num ritmo acelerado. Foi mais um sonho, estou viva. As coisas estão dentro do controle. Eu deveria estar feliz, mas não estou.
Volto a dormir. Acordo bem, com vontade de abraçar até a parede. Brinco com o cachorro, digo bom dia pros vizinhos. Dou passagem pra todos os motoristas que encontro ao longo do dia. Cumprimento todas as pessoas que passam por mim e cantarolo alguma música com versos alegres.
Tenho vontade de viajar, escrevo para velhos amigos dizendo o quanto gosto deles. Cozinho bem, acerto temperos. Trabalho eficientemente.
De repente os fantasmas na minha cabeça começam a sussurrar coisas que eu quero só esquecer. E me fazem lembrar que não sou forte o bastante. Que até minha pose inabalável é uma mentira. A vida é uma mentira.
E as verdades todas começam a vir em minha direção. Todas de uma vez. Feito pingos de chuva que se chocam violentamente contra o nosso corpo e doem de uma forma dolorosa, não dolorida. Uma chuva que dói. Tenho medo de tempestades. Tenho medo da vida real. Tenho medo desses altos e baixos. Dessa chuva e desse sol que ficam se alternando como num piscar de olhos.
O telefone toca.
- Oi Lívia, como você está?
- Bem. E você?
- Ótima. Tô ligando pra conversar sobre...

Minha velha amiga começa a contar suas felicidades às vésperas do seu casamento. E tudo que mais me frustra é que enquanto ela pede minha opinião sobre flores e organzas, meu penne esfriou.

domingo, 15 de maio de 2011

Um café, um cigarro e 15 minutos.

Meus dedos digitavam rápido o maldito trabalho que eu já não podia mais protelar. O escritório parecia pequeno demais pra minha raiva. Queria gritar, queria espernear, queria jogar um copo na parede.
Mandei os estagiários irem almoçar.
- Mas já, doutora? Ainda são 11h da manhã.
- Meu filho, vai. Corre daqui enquanto você ainda tem tempo. Tô mandando ir logo. Voltem às 14h. Nada antes nem nada depois disso!

Meu sócio tá com a filha doente no hospital. Essas coisas que criança nova vive pegando. Gripe ou coisa parecida.
Casal de primeira viagem acha que qualquer resfriado já é uma tuberculose. Então deixa eles com as neuras deles que as minhas já são muitas.
De repente eu parei e fiquei sentindo a ausência de vozes na minha sala. Eu poderia dizer silêncio mas compramos um escritório no 3º andar em uma avenida super movimentada. Levantei, joguei os saltos pra debaixo da mesa e andei descalça como se me livrando daqueles sapatos desconfortáveis minha alma também se sentiria confortável.
Sentei no sofá mas ainda precisava de mais um conforto. Levantei e arranquei a meia-calça como se arrancasse minha própria pele saindo de um eu que não sou eu pra um que tenta ser eu.
Meu divórcio saiu há um mês. E tem seis que eu não fumo nem bebo cafeína que é pra não piorar a insônia. Tô fazendo yoga, tai chi chuan, meditação e um milhão de coisas que meus amigos dizem pra eu fazer pra não ficar martelando minha própria cabeça do porquê joguei meu casamento no lixo.
O fato é que meu casamento, como vários, não resistiu à crise dos sete anos e agora, cá estou divorciada e sem nem saber como paquerar alguém após 9 anos de absoluta monogamia. Os que mulheres com 33 anos fazem pra arranjar um namorado? Internet? Boates? Mulher já pode chegar no homem e ter a atitude de convidar pra sair? Pode pagar bebida na balada?
Só o alívio da meia-calça não adiantava. Eu preciso de algo mais.

Fui até a copa e abri o armário. Raul gosta de café extra-forte. Mas como amigo e sócio, pensando no meu bem estar, resolveu esconder a droga da viciada aqui. Achei o potinho. Cheiro de café de verdade. Não aquela água açucarada que eu venho bebendo. Peguei minha caneca, taquei água fervendo e três colheres bem cheias do café solúvel. Dei uma golada como uma criança beberia do rio de chocolate do Willy Wonka. Café é libertador. Café é vida!

Subi pro terraço. Descalça e sem meia calça e já com a gola da blusa desfeita. Pouco apresentável, mas no terraço do prédio ninguém iria me incomodar ou roubar meu café.
Fiquei lá observando a avenida. Aquele bando de gente apressada, carros indo e vindo. Criança chorando, cachorro latindo. Mas ao mesmo tempo que estava à minha frente, estava tão longe. Tão longe que consegui anular aquilo e olhar só o horizonte.
De repente a porta se abre e um homem aparece. Um semi-engomadinho, gravata afrouxada e uma cara conhecida.

-Oi
-Olá
-Tudo bem?
-Sim
-Fazendo o que aqui?
-Nada
-Você é assim sempre tão monossilábica?
-Oi?
-Ok, deixa pra lá. Miguel, 4º andar
-Ehhrr Andrea, 3º andar
-Aaah a advogada, né?
-Sim.
-Sempre vejo você no elevador.
-Eu acho que eu nunca te vi.
-Pois uma mulher bonita como você nunca passaria despercebida.
- ...
-Posso fumar?
-Você veio aqui pra isso?
-Você se incomoda?
-Porque eu deveria?
-Você vai ficar fazendo perguntas? Posso ou não?
-Eu sou a sua consciência?
-Hahaha. Tudo bem então.

Eu podia pedir o telefone dele naquela hora. Ou podia me jogar pra cima dele de uma vez. Eu já tinha visto ele no elevador, na portaria, na garagem. Certa vez ele achando que eu não tava ouvindo comentou com um amigo que me achava gostosa. Não sou puritana, foi bom ter ouvido aquilo, mas deixei pra lá porque ainda era casada.

-Me dá um cigarro?
-Você fuma?
-Não, meu celular descarregou e preciso mandar sinal de fumaça pra minha empregada não esquecer de alimentar meu gatos...
-Hahaha. Engraçadinha. Mas é sério, você fuma?
-Se você vai me fazer perguntas, sugiro que nos encontremos num tribunal pra fazer isso perante um juiz...
-Calma, gata. Tá aqui seu cigarro
-Obrigada. Tem seis meses que eu não fumo. Tô em crise de abstinência de nicotina.
-Seis meses? E porque fumar justo agora?
-Apenas não estou tendo um dia bom.
-Por que?
-Um caso chato, pessoas me irritando, meus pais querendo se mudar pra minha casa, e a filha da empregada comendo meus doces escondidos.
-Então que tal no fim do expediente a gente sair pra tomar alguma coisa e eu te fazer relaxar, te dar algum prazer?

Daí ele se aproximou. Pronto. Aí é o ponto. Homens bastam ver uma mulher com alguma fragilidade pra convidar pra sair. Senti a segunda, a terceira, a quinta e até a ré de intenções naquela pergunta. E definitivamente, nem com todo tai chi chuan e todo antidepressivo que houver nessa vida, eu ainda não estou pronta pra outro envolvimento afetivo.

-Queridinho, obrigada pelo convite, mas todo prazer que você podia me dar durou os 15 minutos desse cigarro. Tenha um bom dia!

domingo, 28 de novembro de 2010

Cicatrizes

A maioria das pessoas não gostam de ter cicatrizes e sentem vergonhas em mostrá-las. Escondem sob roupas, maquiagens ou tatuagens.

Alguns pontos da síntese inflamam, a pele as vezes não convalesce como o esperado, a linha reta pode entortar e a cicatriz toma uma forma indefinida. Ou ainda, num processo biológico, um caso de quelóide pode agravar ainda mais a anatomia de um processo cicatricial.

Minhas cicatrizes são grandes e irregulares, uma em cada perna. Estão longe de serem cicatrizes delicadas. São agressivas aos olhos alheios. Causam incômodo e fazem as pessoas terem muita curiosidade, não conseguirem se segurar e acabar perguntando o que eu fiz para ter aquelas marcas enormes nas minhas pernas. Quando conto que são advindas de cirurgias para correção de um problema nos joelhos, sempre ouço "Poxa, mas tão nova". Sim, bem nova. Antes mesmo dos 30 anos que é para não ter problemas de desmineralização óssea ou antes mesmo de me ocupar com qualquer outra coisa que não seja a minha vida e a minha saúde. E quando dizem para eu procurar um cirurgião plástico para "ajeitar o problema" eu agradeço a sugestão e digo que estou bem do jeito que estou.

Eu amo as minhas cicatrizes. Elas são bem mais do que simples incisões feitas por um bisturi e depois suturadas. Há muito mais por trás delas. Há uma vida toda que foi intensamente vivida e bem aproveitada. Tem todos os planos que fiz e desfiz por inúmeras razões. Tem todas as experiências que acumulei durante minha vida toda. Tem sonhos, pesadelos, sede e fome de aspirações. Tem viagens realizadas, pessoas que conheci e sempre lembrarei e também aquelas que me tomam um esforço diário para tentar esquecê-las. Tem amores e ódios. Amizades, paixões, frustrações e orgulhos. Tem acontecimentos engraçados, tristes, tensos e até bizarros. Tem os idiomas que eu falo, o conhecimento que adquiri, as técnicas de defesa que aprendi ao lidar com todo tipo de gente. Tem sangue, choro, garra, esperança, suor e superação. Tem esforço - e algumas vezes também - cansaço. Mas se tem uma coisa que não existe em nenhum dos 33 pontos das suturas é desistência. Com toda dificuldade, com toda dor, com todo o ferimento, a persistência foi simplesmente a linha que sintetizou a pele novamente.

Sou uma pessoa ímpar. Tenho plena consciência disso. E diferente das pessoas que se envergonham, eu tenho muito, mas muito orgulho mesmo, das minhas cicatrizes que não são nada perfeitinhas e delicadas, bem pelo contrário, são tortas. São hardcore. São punk. São minhas. É a minha história que elas escreveram e também, claro, reescreveram.
Sempre que posso uso shorts. Tenho comprado vestidos cada vez mais curtos. Quero que as pessoas vejam minhas cicatrizes e se perguntem como eu posso ter aguentado a dor que elas causaram.
Como aguentei, nem sei. Mas sei que aguentei e ponto. Sou mais forte do que supunha. E aprendi mais coisas do que saber como fazer a assepsia de uma sutura.

Já pensei em ampliar uma foto delas e colocar como um quadro no meu quarto para expressar todo o meu afeto por essas marcas que aqui existem e que são muito mais do que sinais de que tive meus fêmures fraturados em sacrifício para consertar minha estrutura óssea. Quero colocar como wallpaper no meu celular, nos meus computadores ou fazer uma estampa de camisa com a foto delas. Como se fossem troféus de uma importantíssima competição entre eu e mim mesma em que eu fui a campeã. Apenas porque elas mostram que tive dificuldades, limitações, provações e passei por traumas físicos e psicológicos mas me recuperei. Que a dor diminuiu, problemas foram consertados e embora sequelas tenham ficado, mantive a cabeça erguida, reuni coragem e encarei de frente uma coisa que várias outras pessoas protelam para fazer e se submetem a uma vida de analgésicos para disfarçar a dor.

Uma cicatriz existe pra mostrar que um sacrifício foi vencido com sucesso pois caso contrário, no lugar da cicatriz ainda existiria uma enorme ferida aberta causando uma dor contínua e deveras incômoda.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Quanto mais eu preciso lembrar até que eu consiga esquecer?

Sou cinéfila e sempre fui uma pessoa solitária. O combo filha única+antissocial+nerdice garantiu isso. Então a maior parte do meu tempo livre eu aproveitava pra ler e pra assistir filmes. São coisas que gosto e que de certa forma me fazem a companhia física da qual eu não disponho. Eu acho que eu me acostumei a ser só. Tanto é que quando eu arranjo uma companhia, se ela fica muito presente, os pólos se invertem e de alguma forma o universo conspira, ou talvez eu me auto sabote e aí volto a ser sozinha novamente. Namoros enchem o saco, terapeutas enchem o saco, amizades enchem o saco. Qualquer pessoa que se atreva a passar a linha de segurança máxima da minha privacidade, enche o saco.

E aí eu corro e me escondo num lugar da minha mente onde só eu tenho acesso. Fico toda encolhidinha dentro de uma caixa de sentimentos. Eu sempre fui assim. Poucos amigos, muitos segredos quando se tratava dos meus sentimentos, muitos sonhos não compartilhados, muitas opiniões escondidas. Muitos gritos abafados. Nenhuma lágrima de medo na frente de ninguém. Se tem um sentimento que eu realmente escondo é o meu medo. Tenho medos incontáveis. Fundamentados nas mais diversas razões. Mas sempre finjo uma pose de durona e não deixo ninguém saber deles. Talvez seja esse meu maior problema nas terapias desde criança. Eu não conto os meus medos. Meus traumas me causam medo. E eu não falo dos meus traumas.
Freud ensina que nosso aparelho psíquico suprime todas as experiências que nos causam dor e o consequente abalo de nossa integridade psicológica. Nossa mente cria mecanismos de defesa que nos retiram da realidade dolorosa em que nos encontramos. Devo ter traumas escondidos na minha mente. Coisas que foram involuntariamente enviadas ao meu inconsciente. No entanto, ainda me restam traumas que eu gostaria que tivessem tido o mesmo destino. A mente é vasta e foge de qualquer entendimento humano. Desde os bilhões de neurônios aos milhares de processos cognitivos. Então por que somos capazes de esquecer certas coisas e em contrapartida precisamos nos lembrar constamente de outras?
Certamente que tenho problema de memória. E quando digo problema de memória não é porque ela está falhando e me fazendo esquecer as coisas. Não. Muito pelo contrário, o problema da minha memória é que ela é uma garota muito sapeca e fica me fazendo lembrar o tempo todo daquilo que eu preciso esquecer. Ou que pelo menos me obriguei a esquecer.

Dia desses acatei a indicação de um amigo e assisti o filme "O brilho eterno de uma mente sem lembranças" e comecei a refletir sobre ele. Quantas vezes eu não quis a melhor solução pra esse meu problema de memória... E a solução que o filme apresenta é mais fácil, mais prática e mais confortável.
Depois que uma relação termina, há dor para as duas partes. No entanto, uma sempre sente mais que a outra. Uma parte supera e segue em frente. A outra parte que fica com todo o sentimento acumulado esperando pra ser gasto finca o pé no terreno do abandono e se afunda num processo sadomasoquista sentimental. A dor sempre vem acompanhada de vários estágios. Desde a negação até a barganha. Cada pessoa responde de uma forma, mas algo é sempre recorrente: A cara de idiota na frente do espelho, em meios aos vestígios do escape – geralmente alimentício, alcoólico ou qualquer forma bem pouco saudável – as lágrimas e o desleixo estético, se perguntando “Porquê?”
Eu juro que na hora em que a saudade sufoca, não cabe mais dentro de mim e resolve escorrer pelos olhos é quando eu mais queria poder deletar algumas coisas do sistema operacional da minha cabeça. É uma lixeira que nunca se esvazia e onde não existe obediência ao comando shift+del.
Queria eu poder enfiar numa caixa todos os objetos que me remetem à lembrança desse período, seus presentes e todos os objetos que me trazem suas lembranças à tona, dormir algumas horas e quando acordasse seria como se a sua presença na minha vida nunca tivesse existido. Como se nada tivesse acontecido.

Eu não teria me atrasado pra aula e não teria corrido pra subir por aquela escada naquele dia, nós não teríamos nos esbarrado, eu não faria amizade com nenhum de seus amigos, eu não teria lhe dado meu e-mail no laboratório pra gente conversar melhor, não teria contado nada dos meus medos, meus segredos ou meus sonhos. Nós não teríamos feito amizade. Não teria segurado sua mão nem teria sentido seu abraço enquanto meu pai estava à beira da morte. Eu nem teria aceitado sua presença nessa ocasião e muito menos teria chorado no seu colo. Eu não teria ninguém pra chamar de minha pessoa, ninguém pra rir junto das coisas que só eu acho graça. Eu não teria feito a viagem que colocou tudo a perder só porque eu achava que relações não funcionam à distância. Eu não teria sentido ciúmes nem teria me sentido ameaçada por uma pessoa que tem mais sorte do que eu por estar em sua companhia todos os dias. Não teria me cansado de ser só e implorado por sua companhia. Eu não teria criado um mundo só nosso, com costumes só nossos, onde éramos figuras heróicas e onde nos compreendíamos de forma completa reciprocamente e onde eu queria lhe salvar de todos os problemas do mundo só pra lhe fazer feliz. Eu jamais, teria tido alguém pra contar sobre os meus traumas, os meus medos e tudo aquilo que me incomodava. Não teria permitido que conhecesse o meu lado que eu nunca havia mostrado pra ninguém.
Eu não teria sido feliz com alguém por 3 anos sem precisar fingir ser quem eu não sou. Nada disso teria acontecido. Mas ainda assim, aceitaria apagar seus vestígios da minha memória pois apesar da importância das lembranças felizes esquecer é preciso depois do fim, já que tudo se torna tão dolorido.

E tudo que eu queria agora era esquecer que cada vez que penso em nós, sinto o pesar de toda uma vida que poderia ter sido e acabou não sendo.
Acho mesmo que Sou apenas uma garota complicada tentando encontrar paz de espírito. Então, por favor, em um dia frio venha correr numa linda praia comigo e me diga...

Tudo bem. Não há nada em você que eu não goste.




sábado, 18 de setembro de 2010

A insônia, o gorila e a menina pensante.

Dormi a uma hora, acordei ás quatro da manhã e perdi o sono. Enrolei na cama, virei pra um lado, virei pro outro, diminuí a temperatura do ar condicionado, percorri todos os canais da tv a cabo, desliguei a tv, tentei contar carneiros, porcos, elefantes, zebras, girafas e até bichos-preguiça que quem sabe demorando a contar o sono voltasse a habitar minha pessoa. Mas não tivemos acordo e ele resolveu se mandar pro Acre.
Tentei fechar os olhinhos e disse a mim mesma: "Mim mesma, você não vai fazer isso. Não pense. Não seja petulante. Vai dormir. Agora! Valendo!"
Mas lá ao longe, atravessando o Rio Guamá a fortes remadas, eles vinham. Rompendo o céu paraense, passando todos os sinais vermelhos, se valendo de que a essa hora não tem trânsito nenhum, acelerando e furando todos os sinais vermelhos, eles vinham. Dobraram a esquina da minha alameda com a velocidade de avião, se espreitaram pela porta da sala, derrubaram a porta de meu quarto, se esgueirando por entre os móveis e esparramaram-se sobre a cama ao meu lado. Pronto, comecei a pensar. Droga.
Aí todo esforço foi por água abaixo e de repente os pensamentos mais diversos tomaram-me de assalto.
E sabe-se lá porquê, além do pensamento habitual e recorrente de uma determinada pessoa que ainda é uma lacuna em minha vida, lembrei que no depósito de casa tem uns pares de caixas onde estão guardadas lembranças da minha infância. Algumas roupas e sapatos que minha mãe guardou, uns livros e muitos brinquedos. Já doei uma grande parte, mas alguns ficaram porque tem histórias especiais.
Brinquedos que herdei, que ganhei de pessoas que já viraram estrelinha, brinquedos que economizei mesada o ano todo pra comprar, coisas que comprei em viagens. Tudo lembranças. Boas lembranças. Cogitei a possibilidade de talvez escolher uns poucos e doar o resto. Assim, limpo espaço em casa e proporciono a diversão de algumas crianças.
Lembrei que há uma caixa só de pelúcias que tem uma lembrança especíalissima. Foram conquistadas numa época boa.
Quem tem lá pelos seus 20 anos, ou que pelo menos viveu grande parte da sua infância nos anos noventa, vai lembrar da febre que foram as máquinas de pelúcia. Espalhadas em todos os cantos, sempre cheia de luzinhas e pelúcias bonitinhas, chamava a atenção de qualquer um. Eu, modéstia à parte, me tornei uma expert naquela máquina. Com o tempo, acabou virando hobby pra mim. No começo, conseguia levar a garra até o meio da máquina e me contentava com o que viesse. Depois, já com a devida perícia, eu escolhia o bichinho que queria e o conseguia em questão de segundos. Perto de casa tinha uma lojinha que tinha uma máquina dessas e foi aonde eu consegui a maior parte da minha coleção. Quando eu chegava a dona da loja já vinha me olhar pescar minhas pelúcias. Todo dia levava no mínimo umas cinco pra casa. Sem contar nas que pegava por pedidos de pessoas que ficavam às minhas costas olhando meu desempenho. Consegui pra mais de 200 bichinhos. Era um vício. Se fosse esporte, eu podia me inscrever em algum campeonato.
Mas lembro que apesar de conseguir várias pelúcias, um dia algo me desafiou. Como de costume, cheguei na loja, dei oi pra dona e pros funcionários, comprei umas fichas e fui me divertir. Quando no meio da máquina enxerguei uma pelúcia de um gorila. Ele não era bonito pra mais ninguém. Tinha cara de mal, era grande, preto, tinha uma banana em uma das mãos e estava preso no meio de um monte de outras pelúcias. A dona da loja me falou que mais cedo três pessoas tinham tentado tirá-lo e sem sucesso haviam desistido. Eu, teimosa do jeito que sou, enfiei na cabeça que eu queria aquele gorila. Tentei um monte de vezes e nada. Ele continuava lá. Me vinham até pelúcias que eu não queria e que acabei doando pra crianças que estavam me olhando e continuei tentando agarrar o gorila. Mas naquele dia tive que voltar pra casa sem ele. E assim a semana seguiu. Todos os dias, durante um mês inteirinho eu tentei pegar aquele gorila pra mim. Chegava a ter calafrios quando via alguém tentando, agarrando o gorila, a garra subindo, levando ele pra saída da máquina e de repente ele caía no meio dos outros bichinhos. Ufa! Respirava aliviada sabendo que ainda tinha chances. Um dia, cheguei para tentar mais uma vez pegar meu objeto de desejo. E em algumas poucas tentativas, consegui. Ele era meu. Não era um dia em que o sol estava mais brilhante ou o céu mais azul. Não chovia, nem tinha arco-íris. Não teve uma banda tocando aquela música do Ayrton Senna, nem estouro de fogos na rua. Ninguém veio me trazendo um buquê de flores, uma coroa de louro e me dando banho de champanhe. Pois ninguém ali, além de mim, sabia que o mundo tinha acabado de se tornar mais laranja, mais bonito e mais feliz. Eu era criança e tinha conseguido vencer um desafio. Eu queria muito uma coisa e me empenhei em consegui-la. Com meus poucos anos de estadia nessa vida, tinha aprendido uma lição importante sobre querer muito algo, tentar incansavelmente e conseguir.
Gostaria de saber em que momento da minha vida eu deixei essa lição de escanteio. Talvez ela estivesse na mesma caixa que o gorila e os outros bichinhos. O fato é que tenho que resgatar os dois. A lição e o gorila King.
Naquele dia, uma coisa torpe havia mudado muito de mim. Eu era uma criança mais madura. Já caminhando pra moldar a personalidade que tenho hoje. De tentar trocentas vezes, dar com a cara na porta o tempo todo, mas nunca desistir e aí, quem sabe, conseguir.
Saí da loja com várias pelúcias na mochila e o King na mão.
- Tchau, dona Socorro. Até amanhã!
- Parabéns, Anne. Vejo que você conseguiu seu macaquinho! Até amanhã!