Eu já comentei aqui, sobre a questão da violência. Do potencial agressivo que todo ser humano tem.
Mas agora eu falo sobre a agressão contra si próprio.
O que leva alguém a se autoflagelar? A provocar constantemente dor no seu próprio corpo, na sua própria alma, no seu próprio coração?
Todo mundo uma vez na vida já pensou em deixar de existir. Algumas pessoas amarram cordas aos seus pescoços, enfiam uma bala em suas cabeças, jogam-se de prédios altos, cortam os pulsos... Outras pessoas como eu, ingerem altas doses de remédios calmantes, remédios que alteram a frequência cardíaca, hipoglicemiantes ou simplesmente deixam-se levar por águas revoltas.
Mas de uma forma ou outra, uma coisa é comum em quem comete ou tenta cometer o suicídio. A pior parte não é morrer. É simplesmente ter desistido de viver.
Já tentei me matar quatro vezes. Por problemas que não cabem nesse espaço e nem conseguem sair da minha cabeça e serem fielmente descritos por mim. Apenas desisti de viver por quatro vezes. E acreditem quando eu digo que o fato mais preocupante em relação a um suicida não é quando ele diz que vai se matar, ou quando tenta se matar. Quando o suicídio não se concretiza, você se sente inútil. Se sente um lixo. Você não presta pra exatamente nada. Não faz nada direito. Não tem capacidade nem pra se matar.
Todas essas coisas rondam a sua cabeça junto com pessoas que te olham com cara de coitadinho, achando que você é louco e tentando fazer psicanálise cretina com os seus problemas. Outras te taxam de fraco. Dizem que você deveria ter força de espírito pra continuar vivendo. E ainda há aquelas que dizem que Deus é mais. Que isso é pecado e quem se mata não entra no céu.
Sou muito centrada. Faço planos. E quando eles não dão certo eu me sinto perdida. Meu maior medo é esse. Sentimento de perda.
Mas ironicamente eu não tive medo de me perder de mim quando ingeri altas doses de ansiolíticos, de insulina aspart ou quando desisti de nadar e deixei a água entrar nos meus pulmões.
Mas até as intervenções médicas e a mão que me puxou da água, eu tinha desistido de muita coisa. Então tudo que eu queria era que desistissem de mim. Mas não desistiram. De alguma forma, não sei exatamente por que, por quatro vezes desisti de viver e por quatro vezes, motivos divinos ou seja lá o que sua crença disciplinar, me fizeram voltar. Voltar à mesma vida. Voltar a pensar que talvez precisasse apenas de um novo ponto de vista ou um novo plano.
Já desisti de tanta coisa nessa vida. Desisti de ganhar, de perder, de amar, de lutar...
Mas ontem, algo me fez repensar sobre as minhas desistências. Tenho uma avó de 80 anos, com câncer no útero em estágio avançado e em metástase. Com 80 anos, ela era uma pessoa muito lúcida. Mas há cinco dias, depois de duas semanas internada num hospital, ontem eu simplesmente vi que a minha avó já morreu, que aquela pessoa naquela cama, não é mais ela. Aquela pessoa só dorme, não reconhece ninguém, não fala com ninguém, não ouve ninguém. A sensação que eu tive era de que qualquer hora ela me surpreenderia e contaria uma coisa engraçada. Mas ela ficou lá, durante horas, só respirando com dificuldades, com tubos por todo o seu corpo e sem responder minhas perguntas ou falar comigo qualquer coisa que fosse.
As vezes sou dura com as palavras, com todo mundo que eu conheço e até com quem eu amo. Mas ultimamente eu tenho pensado que isso não é algo de todo ruim. Pelo menos eu sou sincera. Coisa que hoje em dia, poucas pessoas conseguem ser.
Mas ontem, machuquei a mim mesma, quando de fato percebi que o fim tá próximo. Aquela pessoa que eu conheço a 20 anos, que jamais desistiria de nada, está sendo tirada de mim. E eu não posso fazer nada por isso.
Quando eu me olhei no espelho e disse "Acabou", com certeza doeu mais do que quando vi que tinha sobrevivido a um suicídio. Perdi o controle, meus planos foram por água abaixo. Me senti perdida. Completamente perdida.
Pensei em desistir de tudo, procurei pela casa meus remédios, já que depois de 3 episódios, eles foram escondidos pelos meus pais. Pensei em consegui-los por meios fraudulentos. Pensei na arma no fundo do armário. Pensei na corda pendurada na árvore. Pensei na gilete em uma incisão vertical na carótida. Pensei no veneno.
Achei um dos remédios. Exatas nove pílulas. É o triplo da última vez. Amitriptilina causa taquicardia podendo levar ao infarto do miocárdio ou um acidente vascular cerebral. A bula deles eu tenho na cabeça. Se misturar com álcool potencializo os efeitos. Se conseguir um inibidor da monoaminoxidase não tem erro, não haverá volta. É o plano perfeito.
Continuo olhando pras pílulas desde ontem à noite. Posso numa simples ligação conseguir o outro remédio. Mas algo puxa a minha mão para não pegar o celular.
E então eu tomei a decisão mais convicta da minha vida.
A água foi levando as pílulas todas, o copo de vodca também. Talvez isso vá repercutir na vida das pessoas que eu amo mais pra frente. Mas pelo menos, por agora, eu desisti. Desisti dessa vida.
Não sou fraca. Eu posso desistir de tudo, mas eu nunca fugi das minhas responsabilidades. Eu era uma rocha e comecei a sentir que estou ruindo. Mas enquanto eu puder permanecer de pé, eu o farei.
A pior parte de um suicídio é quando se desiste de viver... A melhor parte é quando você simplesmente desiste de desistir da sua vida e vê que há planos melhores a serem feitos porque tudo que se precisa é de um plano certo. E o meu plano é continuar, sem lâminas na pele derramando sangue e com pílulas sendo levadas pela água da descarga pra onde eu nunca mais as veja.
0 comentários:
Postar um comentário